Argos- uma nova panorâmica
   Por uma esperança eterna

Quando cheguei, deixei-me ficar. Larguei meus pés e corpo sobre a cama, estendendo os braços tal à forma de cruz, e fiquei.

O relógio marcava 22:34, mas comi um minuto e se transformou em 22:33...era a hora dela chegar. Os lençóis, tive o cuidado antecipado de trocar, todos brancos, limpos, perfumados, como sempre fora.

Depois de um banho eu era outro homem, deixava que escoasse com a água gordurosa do sabão todas as aparências, todas as falsidades, gritos e trânsito; minha casa era meu refúgio, onde eu só me permitia ficar sem os tamancos.

Antes, já preparara todo o jantar que esperava só por ser aquecido, e não tardaria.

O relógio já marcava 22:36, comi mais três minutos, ela haveria de vir.

Estava tudo tão caloroso e limpo como nunca estivera antes; era perfeita a disposição dos móveis, das roupas, das almofadas e até dos quadros. Lia não teria mais que reclamar da minha falta de organização.

Quando nos conhecemos em uma exposição de fotos, eu a chamei para sair. Ela era tão sensível e madura, conhecia minha arte e tinha olhos encantadores. E aceitou.

Lembro que a primeira coisa que me disse foi quase uma intimação, que a muitos assustariam, mas a mim acalmou: “Já não sou mas menina e nem perco tempo com uns beijos e cama. Quero algo sólido, e se você não pode me dar, terminamos aqui”. Eu aceitei.

Foram sete anos de solidez, até que ela se cansou e decidiu ir embora. Disse que eu havia mudado.

Conversamos seguidas vezes e reatamos, mas de uma forma incomum, ela não morava mais comigo e no víamos sempre depois do trabalho quando ela não estava cansada demais. Desde então, ela chegava sempre no mesmo horário 22:33. Era supersticiosa, já que da primeira vez em que testamos esse método, ela chegara nessa hora...e como foi incrível; sentir depois de quatro meses de separação o seu perfume, o seu corpo, ouvir suas novidades, comentar seu trabalho, ajudá-la a escolher as cores das tintas para pintarmos seu apartamento. Era como se desde o começo nosso relacionamento tivesse que ser assim, livre e independente.

O relógio marcava 22:40, comi sete minutos. Ela viria.

Minha tranqüila espera começou a me atormentar. Levantei, fui à cozinha, averigüei os pratos, o vinho. Troquei as almofadas de lugar e fui para a varanda esperar. No canto, um vaso quebrado e um bilhete. Como eu pude esquecer do vaso?

Recolhendo os cacos cortei o dedo, abri o bilhete que dizia: Vinícius, não esqueça a missa de sétimo dia da Lia, por favor, vá. Leve esse vaso ao cemitério, precisa visitá-la. Ana.

Fui ao banheiro, lavei o dedo, enxuguei a mão e troquei a toalha, Lia não gostava de sangue, ficaria preocupada.

O relógio marcava 22:52, comi dezenove minutos. Ela devia estar a caminho.

 



 Escrito por nandarc às 11h00
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Hoje senti medo do inevitável, temi o destino e o caminho incerto que ele oferece. Senti de perto a vunerabilidade dos fortes e ador dos inocentes; me encarei sozinha.

Parece realmente que o que vem não é mesmo nosso, assim como tudo que aparenta nos pertencer, e a tristeza que enfrentei parece corromper todas as esperanças.

Queria poder inverter a força que guia os homens e fazer as coisas conforme meus olhos enxergam, mas também tenho medo de fracassar e deixar sofrer também aqueles que estão ao meu lado.

Percebi o quanto amo meu pai no momento exato em que ele ameaçou dizer "adeus", por isso temi que fosse tarde demais.

(2 dias antes de sua morte)

Hoje muita coisa mudou, mas o sentimento é o mesmo, homenagem sempre àquele que amo e virou meu "muso-inspirador". Esteja bem onde estiver seu Luiz!!!!

Nuno Belo



 Escrito por nandarc às 16h46
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Uma nota de desconsolo

-Bom dia, o que vai querer?
-Bom dia, só o de sempre.
-Um expresso descafeinado e um pão-de-queijo?
-Por favor, traga também o jornal.
-Sim, senhor.
Sentou-se na cadeira do balcão.Os olhos do homem prenderam-se alguns instantes nas janelas e um suspiro fundo segui-se, encerrando quem sabe o desejo de sair na chuva e se fingir perdido para fugir do dia-a-dia, para provar quem sabe, um pão com manteiga e um café puro e forte, sem sensibilidades, sem padrões.
-Aqui está o jornal, o café...e os pães.
A garçonete fez menção de retirar-se, mas propositalmente encontrou uma mancha qualquer no balcão que a deteve durante um tempo mais no mesmo lugar.
O homem encarou-a assustado enquanto fingia ler algo no jornal. Olhou para os lados, sorviu outro gole de café e sorriu quando ela se retirou.
Respirou bem fundo e conteve-se à folhear o jornal minuciosamente, como se lhe fossem de agrado todas as reportagens.
Era sua fuga interior, o medo de ser descoberto e empurrado aos seus algozes; nunca intercederia por uma moça que resumia-se a um uniforme sem cor, um prato de pães ou bolos e uma xícara de café. Mas e seu belo sorriso, onde caberia? Em seus desejos, em seus pensamentos mais profundos e secretos, longe dos olhos alheios.
Comeu como se não tivesse nada na boca, somente um gosto amargo de covardia. Tomou o último gole de café e acenou para que viessem receber.
A moça que já observava de longe aproximou-se:
-Quanto ficou?
-O café é 70 centavos, o pão 60, mas está na promoção...
-E o jornal?
Sem responder, uma lágrima caiu de seus olhos. O homem empalideceu, seu medos eram agora todos públicos; aquela lágrima era mais que a dor do esquecimento, mas a tristeza do engano, do aproveitamento consumado entre falsas promessas que ele mesmo já não lembrava que fizera.
-Sirvo todas as manhãs a mesma coisa, sabe o preço de tudo e há mais de 2 semanas que temos a promoção, conhece até o preço do jornal. Por que alongar essa conversa? Pague tudo no caixa e vá embora se não tem mais nada a dizer. E não fique me esperando sair da janela do seu escritório.
A garçonete falou tudo calmamente e baixo, mas no entanto, ele olhava estarrecido para os outros clientes a fim de se certificar que ninguém compreendia o por quê de um homem rico e bem sucedido com dinheiro suficiente para freqüentar diariamente o café ao lado, insistia em comer pão-de-queijo todas as manhãs naquela lanchonete.
Antes de sair, tocou levemente suas mãos, deixou uma nota de dez reais e sequer olhou para trás.

Esse é um texto um pouco confuso que nem eu mesma consegui decifrar. A intenção primeira era gerar um conflito entre pessoas que se econtram, se conhecem ou não, mas tem algo em comum; mas acabou se tornando uma narrativa dolorida da apreensão de uma descoberta.



 Escrito por nandarc às 12h42
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Foi numa manhã de sol, feriado vazio em Brasília, ao ar livre e com poucas palavras que se travou, em outubro de 77, a batalha decisiva entre ditadura e democracia e se decretou o fim do regime militar de 1964. O cenário era o aeroporto internacional da capital federal, onde estavam para chegar os comandantes militares convocados pelo general Sílvio Frota. Pouco antes, Frota havia sido demitido do Ministério do Exército pelo presidente Ernesto Geisel e, inconformado, queria virar o jogo e derrubá-lo.

 
Um a um, os comandantes chegaram, mas nenhum deles foi ao encontro do general: todos dispensaram a carona oferecida por dois oficiais frotistas e foram para o Planalto, onde, pouco depois, assistiram à posse do novo ministro do Exército, Fernando Belfort Bethlem. Frota, e com ele os radicais que o apoiavam, estavam acabados. Na queda de braço entre a anarquia militar, irmã gêmea da tortura, e o projeto de abertura democrática, este venceu. Ia para a lata de lixo a candidatura de Frota no ano seguinte e Geisel festejava a maior vitória em cinco anos de governo.
 
O episódio é um dos grandes momentos (na verdade, o último) de A Ditadura Encurralada, quarto e penúltimo livro da série do jornalista Élio Gaspari sobre o regime militar, que chegou neste fim de semana às livrarias (Cia. das Letras, 525 páginas, 56 reais).
 
Suspense
 
É um livro de política e de suspense, com momentos de xadrez, pôquer e luta de boxe. Repassa os 1.014 dias entre a derrota da Arena nas eleições de 1974, o fim da censura no jornal O Estado de S. Paulo e aquela manhã ensolarada de 12 de outubro de 1977, quando os generais deixaram Frota sozinho no Forte Apache. Com a mesma fartura de diálogos e documentos dos livros anteriores, Gaspari reproduz o combate diário, às vezes selvagem, do presidente e do chefe de Gabinete Civil, Golbery do Couto e Silva, contra a “tigrada dos porões”.
 
Trata-se de um período bem mais complexo, em que o regime sai em busca de legitimação – e, para tanto, a sociedade civil tinha de entrar no jogo. No dizer do autor, a opinião pública era o “monstro” previsto pelo presidente Juscelino Kubitschek em 1975. Liberado pelas eleições de 1974, nos discursos do MDB, nos gritos da estudantada de volta às ruas, nas denúncias da imprensa, ele saiu engolindo tudo, encurralando o governo, os torturadores, os tecnocratas.
 
Geisel é, do primeiro ao 25.º capítulo, a estrela onipresente. Aqui, um estadista rigoroso, centralizador, com uma visão peculiar de democracia. Ali, um ditador fechado em si, que não ouve Golbery e o faz pensar em ir-se embora. Adiante, um turrão mal-humorado que atira o telefone no amigo (Heitor Ferreira) só porque este lhe diz uma dura verdade (“O senhor esculhambou o Hugo (general Hugo Abreu) e fala macio com o Frota...”). E, com freqüência, um chefão estourado, que dispara palavrões a cada notícia de tortura ou assassinato que lhe chega dos porões de São Paulo ou Rio.
 
É exemplar o desabafo, dias depois da morte do jornalista Wladimir Herzog, quando Frota queria punir o deputado Leite Chaves (MDB-PR) por ter este dito, na Câmara, que aquilo havia sido “um crime ignominioso”, e os dois discutem pesado. De repente, Geisel estoura: “Vocês escolham lá um presidente e venham me substituir!”
 
De conversas assim o livro está cheio. É nesse período que a polícia do Rio tortura o deputado Marco Antônio Coelho, a de São Paulo mata Herzog e Manoel Fiel Filho, Ednardo é demitido, o aparelho do PC do B na Lapa é triturado e os oficiais radicais compõem sua “Novela da Traição”, na qual pedem a cabeça de Golbery. Eles chegam até, como revela o autor, a planejar sua morte. “Deixa esse cara morrer”, disse um oficial ao médico Américo Mourão, quando Golbery se recuperava, no hospital, de uma cirurgia no olho.


 Escrito por nandarc às 11h04
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   RISOS

Poderia deixar

Assim:

Riso solto e

A vontade

Métrica imperfeita

Estado de entorpecimento.

Taparia meus olhos:

Riso frio.

Os que me recriminam são

Sempre os que não sabem rir

 



 Escrito por nandarc às 10h25
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O ANALFABETO POLÍTICO 
O pior analfabeto é o analfabeto político, 
Ele não ouve, não fala, nem participa dos 
Acontecimentos políticos. 
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do 
Feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do 
Sapato e do remédio dependem das decisões políticas. 
O analfabeto político é tão burro que se orgulha 
E estufa o peito dizendo que odeia a política. 
Não sabe o imbecil que, da sua ignorância 
Política, nasce a prostituta, o menor abandonado, 
O assaltante e o pior de todos os bandidos 
Que é o político vigarista, pilantra, corrputo 
E lacaio das empresas nacionais e multinacionais. 
BERTOLD BRECHT 
Lucaz


 Escrito por nandarc às 21h42
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   Pés

marília

Pés que buscam segurança e encontram indiferença, que se

intimidam nas desventuras e rogam por satisfação.

São pés que já conhecem a tristeza e a solidão.

Homens que passam, loucos, sem direção.

Fuga da realidade, conformismo e indiscrição.

Onde estariam nossos melhores

dias e nossa vontade de

continuar caminhando em

 passos graves por essa loucura

que chamamos de vida?

 

 



 Escrito por nandarc às 21h04
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   Ordem?

Semana passada fui à casa do meu amigo Celo e assistimos a um DVD do Doors que ele pegou de um outro amigo. Esse documentário era um misto de show e realidade, um parâmetro perfeito. Enquanto Jim Morrison extravasava em suas performances pós-materiais, uma verdadeira onda de terror ocorria do lado de fora. Não sei exatamente em que época se passou, creio que em meados de 68 com toda aquela euforia marcada por esse ano, onde jovens- em sua maioria- saíram às ruas buscando mais voz e respeito no tocante aos estudos e à vida.

Alguns "detendores" do poder disseram que havia uma onda de comunismo e- não lembro ao certo a palavra- mas vou colocar vadiagem, em tudo aquilo, que se tivessem que houver mortes, haveriam, que eler queria ver mortes, desculpa a falta de esclarecimento em relação aos nomes e funções das pessoas...Dizia mais, aquela histeria não poderia continuar, era preciso repressão. Não foi por acaso que me fez retomar à Ditadura Brasileira.

 

A sobriedade que o homem acredita ter diante do poder, cega às imoralidades por ele cometidas em detrimento da opinião alheia.

Me pergunto: onde está verdadeiramente a razão? O que é histeria? Brigar por algo em que realmenteacreditamos? Estive falando com um outro amigo e por uma circunstância que ele está passando, disse que é melhor crescermos em busca de um sonho, mesmo que ilusório -como a maioria dos meus- do que se frustar lá na frente, e esquecer o quanto é bom acreditar que as coisas podem ser como queremos!

 



 Escrito por nandarc às 16h52
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BRASIL, Sudeste, Mulher, de 15 a 19 anos, Português, Francês, Livros, Política, Sociedade



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